terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Mañana, mañana

Mañana, mañana chora... 
Aqueles caras lá fora 
querem minha cabeça, 
meu corpo numa bandeja, 
com direito a maçã na boca. 

Miña manha na forca... 
Eles querem justiça, 
fazer espetinho do meu coração; 
mas quem terá o que merece, 
o que é 'justiça' por definição? 

Amanhã, manhã, masmorra... 
Mas morra de cabeça erguida; 
sujo de sangue, consciência limpa, 
Pedro será pedra em Roma; 
então morra apreciando a vida. 

(Rhangel Ribeiro)

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Era Éris

Décima oitava manhã azul,
de uma primavera infecunda;
em que só uma toalha é florida,
em que a nossa vasilha é funda.

Girava a rosa dos ventos;
pássaros, pousavam, em bandos...
Galos ao meio-dia eram abutres voando,
sobre a triste carcaça do sofrimento,
roupa molhada, aguaceiro bento.

Nossa amada Tortinha, sem recheio
repleta de meandros.
Uma menina bonita
era Éris, enfeitada com fitas
abrindo seu wagasa,
para um mergulho, sem escafandro
do alto de um velho Jequitibá.

(Rhangel Ribeiro)

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

2%


Eu estava ali,
era qualquer coisa entre os que não souberam ou não opinaram,
o marginal, na margem de erro para mais ou para menos.
Negando o acesso negado, com a violência de todos os ligres.

Eu estava ali,
com os negros adultos adotados por famílias ricas,
com os escritores que amo.,
com lindas mulatas de olhos verdes,
e no troco de três centavos.

Eu estava ali,
bebendo tubaína com os comunistas,
acreditando que trabalho não define carater,
escutando os últimos romanticos,
e achando os Stones melhores que os Beatles.

Eu estava ali,
no senso,
no homem comum,
na minoria,
e na diferença.

Sendo que o senso e o comum
nem eram mais tão amigos...

(Rhangel Ribeiro)

quarta-feira, 30 de outubro de 2013

As ruínas de Abaddom

Nas beiradas do vale da morte,
arremessava corações, feito pedras;
achava graça nas quedas
e nos sons, como canções ao fagote.

Fandangos, guarânias, sonatas,
minuetos, sinfonias, serenatas.
Que importa o que você foi antes
se o seu melhor não foi o bastante?

Aquela boca ri da sua cara.
A ferida não sara
e essa dor não sai.

Do desconhecido ecoa:Aguente!!
O ódio só cai aos pés do sobrevivente,
quando o sobrevivente não cai.

(Rhangel Ribeiro)



quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Sabe-se lá

Ela insistia.

-Ao menos apareça, com seu "Oi".
Mas ele não foi.
E ficou a sensação
de que aquilo ia ser bom...

A explicação?
Sabe-se lá!

Sabe-se lá
para onde se para
anda e vai
quando o semáforo esta´
estafado, em stand by ...

Medo?Talvez...

Eu me importo demais
com o que ainda não sei.
E se a lei não se faz
alguém há de aplicar
sua própria lei...

Qual a moral?
Lá, cê sabe...

Na escuridão
o sorriso é embargado,
os gatos são pardos
e os ratos são reis.

(Rhangel Ribeiro)


quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Rudá

Deitados em volta da mesma chama,
que a tempestade irá levar,
com suas lagrimas de lama,
sob a lâmpada lunar.

Rodeados por essas rochas, cheias de falhas
e por esse oceano, tão cheio de música;
carne, riacho, palha;
estão os homens dessa terra rústica.

Aqui incertezas desaparecem,
 em queda brusca.

E quem só acha
não busca
algo mais
que só achar.

E quando Rudá sumiu,
parece, o céu caiu;
e tapando feridas com malva,
eles oram por um ombro.

Porque seus sonhos são escombros
e toda criação vem da raiva.

(Rhangel Ribeiro)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Minha Quadra

Aqui vi um maneta,
foi em um mês de maio,
num cavalo baio,
com uma baioneta.

Girei maçanetas,
usei blusas de lã,
mordi maçãs,
invejei lunetas.

Subi até tua sacada,
é a mais verde da rua,
mas não vejo a lua,
solitude ladra;

só senti,
que aqui, nesse quadro,
eu já  não me enquadro
só, sem ti...

(Rhangel Ribeiro)