sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Minha Quadra

Aqui vi um maneta,
foi em um mês de maio,
num cavalo baio,
com uma baioneta.

Girei maçanetas,
usei blusas de lã,
mordi maçãs,
invejei lunetas.

Subi até tua sacada,
é a mais verde da rua,
mas não vejo a lua,
solitude ladra;

só senti,
que aqui, nesse quadro,
eu já  não me enquadro
só, sem ti...

(Rhangel Ribeiro)

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Algodões rubros

Camponeses zarpam
em jardineiras,
e nas corcovas dos cabriolés,
pelo caminho dos catolés,
cercados e paineiras.

Soldadinhos de chumbo,
liberdade em gaiolas,
é estado latente e beligerante.

Quebra-Nozes
na casa das máquinas.
Damas e ventarolas...
Fila indiana, cortejo elegante.

De carona, em jumentos
vão estudantes, crianças, mulheres,
com seus risos e cataventos,
abrir a cova dos malmequeres.

Na estrada das quimeras
sumiu mais um jovem moço.
Em um túnel de escuridão tranquila,
que ainda vira,
e vira poço.

(Rhangel Ribeiro)

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

RIP, RIP! ERRO!!

Estou sozinho,
porque sou errado!
Sou todo errado!
Tão errado
que até repito,
de maneira errada
a palavra 'errado'
no final dos versinhos...

'Mais pobre que uma rima pobre
é rimar uma palavra com ela mesma!'

É o que dizem...

Mas é melhor fazer isso,
que acabar usando
 a palavra errada,
no momento errado.

É o que digo...

Falam também
que estou no caminho errado,
e no lugar errado!
Se 'eles' vão para um lado,
eu, rapidamente, vou para o outro.

Eu mesmo não arrisco dizer que estou certo,
também acho, que realmente,
estou no lugar errado.

Mas sei
que assim,
seguindo no rumo contrário,
corro o sério risco,
de estar cada vez mais perto
do caminho certo.

(Rhangel Ribeiro)

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Para onde vão os imortais?

Vivem tua vida
sem tua presença,
apagam tuas pegadas,
e o crime re-compensa.

Mudam
de cidade,
fingem
 teu sumiço.

Fogem,
são omissos.
E entre a neblina, fina...
Desaparece a lealdade.

Fecharam tua cortina,
cobriram tua carcaça,
mas a luz da eternidade,
não passa, transpassa...

(Rhangel Ribeiro)

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Tão belas quanto breves

Sinto falta das folhas de outono,
não deveriam me fazer falta.

Eram apenas folhas secas no outono
espalhadas por toda parte.

Não sei se é por ter algo de 'arte'
que elas me tiram o sono.

Mesmo mortas, eram tão bonitas.
Aquelas breves folhas de outono...

É primavera, é inverno, é verão...
eu olho para o chão,
elas não estão mais lá.

E esse passeio público
que dizem ser de todos,
agora é menos meu;
é só 'falta do que fazer'

sem vocês
folhas de outono.

Vontade de observar
vocês que tem companhia,
que voam com a ventania...

Mas parece que o outono
nunca mais vai voltar...

(Rhangel Ribeiro)

sábado, 15 de junho de 2013

Cantil

Tão avoado, a toa
cheio de remendos
e caixas de remédios...

Esse mundo é tão louco
que nos dias ensolarados
eu prefiro me deitar na sombra,

sim, eu sei
que ao sabor do vento
o tempo não voa...

Mas voam aves,
gotinhas de garoa,
asa delta,
balão...

E pensando em como fazer bom uso da solidão
penso já estar fazendo bom uso dela,
e ela, com certeza, não me abandona;
é companheira inseparável!

Mesmo eu sendo tão pouco,
só mais um louco só
como esse mundo louco,
também solitário
em um canto qualquer do universo.

Sem saber se o universo tem canto,
procuro um cantil, um descanso
para cantar poemas.

Essas abstrações
que eu não consigo decifrar
e que ninguém mais quer ouvir.

(Rhangel Ribeiro)

quarta-feira, 29 de maio de 2013

Ce n'est pas un poème

Estranho:
Esquisito,
desconhecido.

É estranho...
Antigamente mamãe dizia,
quando ainda me dava banho:

'Não aceite nada de estranhos!
Se uma coisa vem de um estranho,
só pode ser porcaria!'

Hoje em dia confundem idiotas
com estranhos...
Mas nem todo estranho é idiota,
e nem todo idiota, necessariamente,
é estranho.

Eu, por exemplo:
Não sou tão idiota,
quanto os verdadeiros idiotas pensam!

Só sou estranho mesmo...
E quando se é estranho
todos são estranhos!
Menos você.

Eu sou o céu,
um céu fechado,
quero me abrir,
mas engoli a chave,
me tranquei para fugir,
mas quero liberdade!

Nunca quis ser visto,
no entanto, não consigo
fazer "vista grossa"
para quem quer 'me ver'.

Aos poucos saio do limbo,
desse casulo lindo
feito por bichos da goiaba,
saio na base do pé de cabra!
Ao som de um coral de bezerrinhos,
para ser livre,
como uma gaivota!
Não,
como um  idiota.

(Rhangel Ribeiro)