Até semana retrasada
parecia impossível,
mas quando eu terminar esta carta
descerei pela última vez
as escadas do farol.
A ansiedade me faz imaginar
que em breve poderei fazer qualquer coisa;
ser pintor, alquimista,
escritor, mágico desenhista
desses que sem perspectiva
apagam a linha do horizonte
(e ainda assim)
encontram um ponto de fuga!
(Coisas que só quem nasce de novo entende...).
Ao senhor, novo faroleiro,
desejo coragem e boa sorte,
mas aviso:
Em maré de altas e baixas,
com o passar lento das horas,
comendo infinitas variações de ostra
e sentindo o insuportável cheiro
do cocô das gaivotas;
é bem provável que lhe arrebate
uma súbita e incontrolável vontade de fugir da ilha;
mesmo sem eira, nem beira, (nem bússola);
e que sonhe todo santo dia, observar de uma escotilha,
(com enjoo digno de montanha russa),
tudo desaparecer...
Se isso acontecer,
lembre-se dos pescadores
e dos marinheiros perdidos;
eles são os únicos que se importam
com sua existência.
Lembre-se do garotinho
que sonhava em trabalhar aqui no alto
e que olhava encantado o mar,
de uma maneira tão inocente (e superficial),
até engolir (à força) o primeiro gole
do coquetel de água com areia e sal,
preparado docemente pela mãe natureza...
Lembre-se também de como é fácil
gostar de algo que não se conhece a fundo;
e de como o amor a distância
é bem mais fácil de amar...
(Rhangel Ribeiro)