segunda-feira, 2 de julho de 2012

Nós

Queremos pensar que somos iguais;
por termos o mesmo sangue vermelho,
e nos imitamos em frente ao espelho,
tantas vezes, sem menos, nem mais.

Atravessamos as mesmas avenidas,
como formigas que invejam caracóis,
presos em nossos casacos invernais,
enrolados nos mesmos cachecóis.

Vivemos na condição de sermos igualmente diferentes,
mas sempre desafiamos a noção de certo e errado;
por não podermos viver juntos;
por não podermos viver separados.

(Rhangel Ribeiro)


segunda-feira, 11 de junho de 2012

Do "P" ao ponto final


O "P" virou a cara,
o "m" torceu o nariz;
mas o "i" plantou bananeira
para ser exclamação feliz !

Foi embora do alfabeto
e foi viajar pelo mundo;
expressou sentimentos nos textos,
nos poemas mais profundos.

Fugiu para ilha das reticências
onde pontos só andam em três .
E achava que por medo de suas essências
eles idolatravam o "talvez".

Envelheceu e se encurvou,
virando interrogação;
então pensou: " talvez  "andar junto"
só seja mesmo medo da solidão."

E nessa vida de dúvida,
onde tudo é talvez,
 que de tanto ser talvez,
talvez nem seja dúvida.

Só teve uma certeza
em sua tristeza de ser sinal.
Tudo acaba onde nada cabe
em um ridículo ponto final.

(Rhangel Ribeiro)

segunda-feira, 14 de maio de 2012

Do mundo de cá

Nenhuma vogal é revogável
e  nenhuma consoante me consola.
Não tenho coelhos na manga, nem cartas na cartola,
só minha confusão como estética aceitável.

Eu aqui onde o parto
é o começo do fim.
Eu que jurei que só parto
quando estiver farto de mim.

Eu, já cheio de tão vazio
estou ficando cansado,
da nostalgia dos sonhos passados,
de um passado que nunca existiu.

E hoje nenhuma rima me arrima,
agora nenhum sentido suporta o sentimento;
Só permanece o ritmo isento
pra não virar estátua de resina.

Hoje minha única certeza
é que assim como nem tudo que não cura
mata.
Assim como nem tudo que não mata
cura,
escrever feito um louco
é o que me salva
da completa loucura.

                                                      (Rhangel Ribeiro)

quarta-feira, 7 de março de 2012

Dio mio

Arrependimento é uma droga,
que não trago;
do meu último emprego
saí puto,
fudido e mal pago.


Também fui expulso de casa,
e foi por justa causa.
Não disse que tinha razão,
e olha que saí sendo chamado de vadio
e sendo comparado a um  super-vilão.


"Dio mio!
Não fui salvo por nenhuma oração,
ainda quero dominar o mundo!! "


Ora, ainda sou algo entre o senhor e o cão,
mas juro que não tenho nenhuma pretensão
além da morte;
Mas entenda que ser chamado de vagabundo
foi um chute no meio dos bagos!


Minha sorte
foi encontrar (inteiro) um quarto vago,
onde posso bolar planos terríveis,
ter pensamentos e sonhos ainda mais vagos
de acabar com o que resta do super-herói.


(Rhangel Ribeiro)

sexta-feira, 2 de março de 2012

Ao primeiro Ex-amor da minha vida

Uma vez, eu ainda criança,
com o coração derretido de amores
me enchi de esperanças
e lhe roubei um punhado de flores.

Você era a guria mais linda da minha rua,
de uma perfeição que me fazia crer em deus.
Eu sei que as flores eram suas
mas os sentimentos (todos) eram meus.

Eu bati na sua porta,
batia forte igual meu coração,
então você saiu e bateu na minha cara
e nesse dia eu aprendi uma lição:

Amores perfeitos

nos canteiros da cidade.
Amores perfeitos

nos jardins da saudade...

(Rhangel Ribeiro)

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Daquele que não espera nada

Não espero dos leitores gentilezas,
nem aspiro inspirar outros poetas.
Ignoro aspirantes a profetas,
o que vier que venha de surpresa.

Verso porque quero,
não espero nada de coisa nenhuma,
essa  'não espera' que me livra do desespero
e que talvez não me leve a parte alguma,
me faz a criança que sente o cheiro do tempero,
surpresa, que a vó faz de vez em quando,
quase nunca.

Não sei se faço por onde...
Mas enquanto der vou fazendo.
Sei que a sorte não sorri pra quem se esconde,
então procuro, e vejo tudo acontecendo.

Não espero, nem aspiro ser eterno
nas palavras, no céu, no inferno,
ser vampiro ou qualquer mito imortal,
nem sei se a terra é moradia provisória.
Não preciso saber a moral da nossa historia
antes que ela chegue no final.
Afinal, não espero nada, até o fim, nada me basta.

(Rhangel Ribeiro)